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Mas o
que há de errado com uma caça “científica” às baleias?
O
professor Toshio Kasuya, da Universidade de Ciência e Tecnologia de Teikyo, no
Japão, deu sua análise da situação no jornal Mainich Shinbun em outubro
de 2005. “Os gastos anuais do programa de pesquisa ficam em torno de 6 bilhões
de iens, ou mais de US$ 50 milhões, dos quais 5 bilhões de iens são cobertos
pela venda de carne produzida durante a caça científica. Os subsídios
governamentais e outros fundos interam o 1 bilhão restante. Sem os ganhos da
venda da carne de baleia, a organização de caça às baleias que conduz o
programa de pesquisa comissionado pelo governo seria incapaz de continuar
operando, e as companhias de barcos que fornecem a frota não poderiam recuperar
seus gastos com a construção dos navios baleeiros”.
“Isso
nada mais é do que uma atividade econômica. Não há espaço para que os
pesquisadores façam um trabalho baseado em suas próprias idéias. Certamente é
algo que não está de acordo com a proposta científica autorizada pela Convenção
Baleeira Internacional (CBI - IWC em inglês).”
Um
problema crescente para a indústria é o declínio do apetite por carne de baleia
no Japão, o que resultou inclusive numa ofensiva campanha pública feita para
convencer a população que a caça às baleias é cultural e economicamente
importante para o Japão. Afirma-se também que baleias comem muitos peixes e
ameaçam a manutenção do estoque de peixes no oceano – dado para o qual não há
qualquer base científica.
O
professor Kasuya diz: “O Instituto de Pesquisa dos Cetáceos argumenta que a
pesquisa letal é o único método apropriado de coletar os dados necessários. Mas
exames de biópsia com pedaços de tecido revelam a quantidade de gordura do
animal ou sua taxa de reprodução, e a análise das fezes proporciona dados sobre
o que as baleias estão comendo.”
O fato é que a comida de baleia é
um alimento de luxo no Japão – e tem sido assim há décadas. Uma pesquisa de
opinião feita em 1999 mostrou que apenas 11% dos japoneses adultos apóiam a
caça à baleia. O número é próximo dos 14% de japoneses adultos contra ela.
Mais
recentemente, de acordo com a Associação Japonesa do Hambúrguer, os japoneses
passaram a comer 40 vezes mais hambúrguer do que carne de baleia. Isso não
aconteceu apenas devido à invasão de Ronald McDonald – o Washington Post
disse em 2005 que “no ano passado, a indústria (da baleia) transformou 20% de
sua carga de 4000 toneladas em excedente congelado”.
Pesquisas
do Escritório Japonês de Estatísticas sugerem que o consumo de carne de boi,
porco e frango está aumentando, e o de baleia diminuindo, desde meados da
década de 60.
O Japão
não é o único lugar onde a caça às baleias – “científica” ou não – é promovida.
A Noruega retomou a caça comercial aos cetáceos em 1993 e a Islândia anunciou,
depois de um intervalo de 14 anos, que ia recomeçar com a caça “científica” em
agosto de 2003. (A Islândia havia previamente proibido a caça comercial ilegal
em 1989 depois de boicotes internacionais e pressões econômicas.) Ambos países
querem exportar carne de baleia para o Japão.
O
reinício do comércio internacional de produtos derivados de baleia terá
implicações de longo alcance. Baleeiros piratas terão um incentivo ainda maior
para promover secretamente a caça das baleias, porque será mais fácil para eles
contrabandear carne de baleia para o Japão. Até mesmo com o boicote atual,
carne ilegal de baleia das duas espécies ameaçadas de extinção é descoberta
regularmente no mercado do Japão.
Os
santuários de baleias são locais de refúgio, fora dos circuitos da caça, onde
populações de baleias podem se reproduzir, se alimentar e continuar seu lento
processo de recuperação depois de anos de exploração. Os santuários oferecem
oportunidades importantes para assegurar a conservação da espécie e promover
pesquisas científicas reais e não letais.
Os
santuários também podem trazer grandes benefícios econômicos. Eles ajudam a
desenvolver a prática de observação de baleias (whale watching), a única
atividade econômica envolvendo baleias que é realmente sustentável. E não somos
os únicos a gostar da idéia – a observação de baleias é uma próspera indústria,
com mais de 87 países realizando operações do gênero, e gera US$ 1 bilhão de
rendimento anual no mundo.
Mas a
caça às baleias tem um impacto negativo na indústria de observação de baleias.
Quando a Islândia retomou a caça, as reservas para observação de baleias caíram
em 90%. A Associação de Observação de Baleias da Islândia culpou a indústria
baleeira e pediu o fim da atividade. Os planos para caça em larga escala foram
postos de lado e a indústria de observação está em recuperação.
Muitas
nações costeiras se beneficiaram com o desenvolvimento de operações de
observação de baleias. A República Dominicana, por exemplo, faturou US$ 5,2
milhões com seu ecoturismo, uma indústria que foi alavancada com a criação do
Santuário Marinho da Baleia Jubarte no Banco de La Plata. Na Austrália, a
última baleia foi caçada em Albany em 1978. Desde então, Albany transformou a
antiga Estação de Caça de Baleia de Cheynes Beach num moderno centro de
observação de baleias, atraindo mais de 1,3 milhão de visitantes.